HISTÓRIA REAL DE UM SER IMAGINÁRIO.
Bem-vindo
aos anos 60, eu sou um garoto eufórico de nove anos e leio meu
magazine sobre a corrida espacial. O presidente John Kenedy disse na
TV no início dessa década que a nossa meta seria colocar um homem
na lua até o fim dela. Estamos todos vivendo de sonhos, nas escolas
todos os alunos amam ciências, na TV, o sucesso garantido é a
ficção científica, no rádio todos os programas chamam atenção
para a próxima quinta feira pois será o lançamento da Apolo 11.
Lembra
das primeiras imagens da Terra? Vivemos no planeta azul e ele é
redondo como uma mexerica. Todos estão parados nos EUA. Rádios, TV,
praças, escolas… todos esperam o lançamento da Apolo. O primeiro
homem lançado no espaço foi o cosmonauta Yuri Gagarin, mas se tudo
der certo, o primeiro astronauta a pisar na lua será o americano de
38 anos Neil Armstrong. Minha irmã de 17 anos agora é hippie, vive
com uns vagabundos cabeludos panfletando por aí… ela me disse que
a corrida espacial é o reflexo da guerra fria, onde os EUA e a URSS
brigam, como numa quebra de braço, pra ver quem conquista o espaço,
enquanto na terra a dualidade politica dessas duas nações geram a
fome e a guerra. Mas eu sei que ela não sabe de nada, o que pode
saber uma menina que se permite andar e fazer sexo com vagabundos
cabeludos? Quem ela pensa que é para falar contra a NASA! Não, a
ciência é o grande desafio da vida mesmo, e não essas alienações
anarco politicas.
Bem-vindo
aos anos 70, acabei de comprar o álbum “Dark Side Of The Moon”
do Pink Floid. Sou um adolescente de 13 anos e gosto de músicas e
séries sobre o espaço sideral. Após a grande euforia da viagem a
lua agora é hora de conquistar o universo, eu não perco star trek,
capitão kirk é o meu herói, vivo imaginando o dia em que a
Interprisses voltará a terra. Na escola sou o número um do grupo de
ciências aplicadas e a minha paixão é a Física. Existem muitas
canções sobre o espaço. Series e magazines em todas as bancas.
Minha irmã hoje tem 21 anos e está saindo da faculdade, ela estudou
o curso de história natural e pretende ser antropóloga. É uma
pessoa bem estranha pois não se interessa pelas escavações e
pesquisas assim da área, ela estuda os governos do terceiro mundo,
fala sobre ditadura, que seria a ausência total da democracia, fala
sobre inflação que é um lance da economia e coisas afins. Ela
pensa em organizar a desigualdade no mundo a partir da criação de
oportunidades para os pobres do terceiro mundo. Meu pai diz que ela é
comunista!
Bem-vindo
aos anos 80, trabalho como desenvolvedor de games eletrônicos sobre
guerras espaciais, depois do sucesso de Space Invaders no final da
década passada o mercado expandiu mas estamos em declínio. Eu só
escuto new wave e new romantic o tempo todo, sou o DJ do clube dos
nerds da minha cidade. A NASA foi um sonho até bem pouco tempo mas
hoje sou do contra, estou metido com um lance alternativo de cultura
pop que dá uma graninha. Escrevo num fanzine chamado “Space Odite”
e estudo computação de ponta, somos conhecidos como ciberpunks,
estamos estudando alternativas de tornar a tecnologia mais acessível
a todos. Minha irmã acha o máximo as minhas ideias, ela é
professora no instituto de história, está casada e tem dois filhos.
Vez por outra escreve um livro que é muito discutido entre seus
alunos. Já não passa mais os Jetsons como antigamente, o espaço
parece algo que não interessa tanto a todos como há anos
interessava.
Bem-vindo
aos anos 90, acabei de assistir 2001 Uma Odisseia no Espaço. É um
grande filme cheio de sonhos de toda uma geração, que é a minha
geração. Eu transformei esse interesse alienado no espaço na minha
filosofia de vida e não posso dizer que sou um perdedor, mesmo me
sentindo como o tal. Os militares e os governos com suas guerras
invisíveis financiaram o futuro que a única forma realmente digna
de se derrubar o sistema e os seus mecanismos. Eu trabalho hoje em
dia com “janelas” e elas nos trazem comunicação em tempo real
além de mil e uma oportunidades. Como ciberpunk eu crio todo um
conceito de relações, tudo isso pela rede mundial de computadores,
onde as transações possam facilitar a vida das pessoas e derrubar
as majors. A esse projeto chamo Terra II, uma espécie de universo
paralelo, onde o mundo virtual é o thonos de tudo. Tudo parece
brincadeira e certo dia repensando a minha vida notei que passei ela
inteira pensando em conquistar o espaço, mas, na verdade, estou
conquistando o paradoxo, tudo isso pelas janelas a minha frente.
GEORGIANO DE CASTRO.

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